Obra: Superman: Grounded

Personagem principal: Superman

Editora: DC Comics

Roteiro principal: J. Michael Straczynski Ano de publicação: 2010–2011

Um ponto de vista errado que temos ao ler algumas histórias em quadrinhos é acreditar que elas são apenas sobre heróis ou que necessariamente precisam de ação e grandes aventuras. Muito pelo contrário: as histórias em quadrinhos são feitas justamente para trazer uma linguagem mais acessível, livre do formato comum de escrita popular, e ainda assim transmitir significados maiores sobre assuntos e temas complexos.

Sendo um claro amante da escola Alan Moore e Grant Morrison de quadrinhos, é claro que, com o passar do tempo, minhas histórias favoritas tenderiam a tratar de sociedade, política e assuntos mais próximos da nossa realidade atual. E é justamente contrapondo todo o primeiro parágrafo deste texto que eu apresento Superman: Grounded, um quadrinho do Superman que tira o peso do Homem de Aço de voar e lhe questiona: o mundo precisa de um Superman?

Eu já deixei claro que meu intuito aqui é sempre explorar as interpretações linguísticas e até óbvias que as obras buscam, e por mais incompetente que eu seja nisso, Laços é uma porta de entrada saudável para quem deseja algum questionamento dentro do mundo dos heróis.

A trama principal coloca Superman, após alguns conflitos, para conversar com civis e decidir que estava na hora de deixar de voar e caminhar pelos Estados Unidos. Então, no melhor estilo Forrest Gump, o Homem de Aço toma sua própria epopeia em busca de verdade, justiça e do sonho americano.

Suicídio, violência familiar, desemprego, criminalidade e ameaças ao meio ambiente são os grandes inimigos do Superman aqui. Por mais rasos que alguns casos sejam em relação à exploração dentro da história, temos uma pequena dimensão de que o famoso “sonho americano” talvez venha se provando bem pouco eficiente.

Na história, os claros elementos heroicos do Superman e suas habilidades são necessários para resolver algumas situações, porém é quando o recurso social do personagem se torna necessário que a obra encontra sua melhor forma. Existe sim um certo receio em tocar diretamente nos aspectos políticos que cercam os casos citados, mas a HQ não deixa de demonstrar que existe influência desse tipo de problema dentro daquele cenário.

Basicamente, esses conflitos sociais afastam o Superman, de maneira que ele logo começa a sentir que talvez seja um símbolo desnecessário — e até perigoso. É aí que surge a dúvida: deveria existir um Superman?

Antes de responder essa pergunta, acho importante centralizar e exemplificar o próprio questionamento do Superman. O fato de ser superpoderoso faz com que seres malignos cada vez maiores desejem desafiar sua força, colocando vidas inocentes em risco. Além disso, a história não esclarece diretamente, mas deixa nas entrelinhas um medo por parte da população em relação ao herói como agente do Estado, quase como um mandante da lei.

E é justamente dessa desconfiança que nasce a vergonha do Superman e o leva a questionar verdade, justiça e principalmente o sonho americano.

Todo mundo deveria ao menos amar verdade e justiça, mas e quanto ao sonho americano?

A verdade é que, nos últimos anos, o lema do Superman recebeu alterações buscando melhorar sua recepção com o público moderno. Basicamente, o “sonho americano” foi substituído por “um futuro melhor”, algo que claramente diz mais sobre o Homem do Amanhã.

E cá entre nós, talvez isso faça sentido. O sonho americano registra números extremamente problemáticos envolvendo pobreza, violência policial e desigualdade educacional. Milhões de americanos vivem próximos da linha da pobreza, enquanto casos de violência policial seguem alarmantes, especialmente contra pessoas negras. Em relação à educação, os índices de alfabetização funcional e desigualdade social continuam extremamente preocupantes.

Esses são alguns dos motivos de vermos Superman cada vez mais afastado do sonho americano e muito mais ligado ao bem-estar social e à defesa dos mais fracos.

É assim que na história Clark Kent resolve seu problema em relação à pergunta central: o mundo precisa de um Superman?

Não como punho, muito menos como juiz, mas como amigo e protetor.

Símbolo talvez seja a palavra que melhor define a atual visão do Superman. Lutar pelos necessitados em busca do que é certo é justamente através de pequenos gestos humanos que ele entende sua necessidade inspiradora de fazer o bem — e continuar fazendo.

A obra então é sobre um herói confuso quanto ao que representa, quase como uma metáfora para seu próprio país natal, levando-o em uma jornada rumo ao abandono do símbolo do sonho americano para então assumir a forma de algo mais forte e louvável: esperança.

Concluo então que Superman: Laços talvez tenha medo de suas origens, mas sabe exatamente onde deseja chegar — e o mais importante é que está indo para o lugar certo.