Obra: O Diabo da Guarda
Título original: Guardian Devil
Roteiro: Kevin Smith
Arte: Joe Quesada
Arte-final: Jimmy Palmiotti
Publicação: 1998–1999
Editora: Marvel Comics
Matt Murdock é, com toda certeza, o melhor exemplo de catolicismo nas obras de quadrinhos, e toda a beleza da conjectura espiritual e social do personagem encontra eco na maravilhosa capa que imita uma Bíblia, deixando clara a relação com o quadrinho O Diabo da Guarda , escrito por Kevin Smith e desenhado pelo primorosíssimo Joe Quesada. Aqui, nessa aventura de oito capítulos, Matt Murdock entra em uma rede de manipulações e provações; mergulhamos mais fundo em seu passado e em seus traumas e logo descobrimos a fragilidade presente na crença desse grande herói. O legado da era Miller seguia vivo no personagem e agora seria o motivo de seu fim.
No começo da história vemos o herói em um confessionário, prestes a pedir perdão por seus recentes pecados, mas então os agitos na rua fazem com que ele deixe o excelentíssimo sem resposta. O Demolidor precisava agir. Ele então vai ao encontro de uma menina de 16 anos segurando um bebê enquanto era perseguida por homens armados. Claramente ele não tem dificuldades em lidar com os criminosos, porém perde a menina de vista, e começa aqui o pesadelo de Matt Murdock.
Chegando em casa, sua atual namorada, Karen Page, deixa uma carta de adeus a Matt, deixando claro que se arrependia da vida de vícios que um dia levara, dos crimes que cometeu e das marcas que carregava, desejando ao amor de sua vida paz e esperando que um dia ele pudesse encontrar a felicidade que tanto procurava. Nosso herói desaba. O galanteador Matt Murdock normalmente procuraria outro rabo de saia para lhe satisfazer, porém agora era diferente; a relação com Karen o tornara diferente e ser apenas um simples cafajeste parecia um desejo fútil.
A obra segue com Matt encontrando novamente a tal menina, agora em seu escritório, junto do bebê. Aqui as coisas vão longe. A menina afirma ter tido a criança virgem, dizendo que em seus sonhos vira o anjo Gabriel lhe avisando que aquela era a reencarnação do salvador e que sua missão seria protegê-lo das forças das trevas. O melhor caminho para isso seria entregar a criança aos cuidados do Diabo da Guarda: o Demolidor.
O fato da menina saber a identidade secreta de Matt tira dele todo o ceticismo. Sua infância católica vinha à tona e a ironia do demônio ter de cuidar do salvador abalava sua realidade. Então, com a ajuda de Natasha Romanoff, a Viúva Negra, Matt começa a cuidar da pequena criança, ainda frustrado por Karen e agora assustado, tentando descobrir que tipo de forças das trevas estavam atrás daquele bebê.
Logo surge um homem velho que se apresenta como membro de uma antiga organização religiosa de Cristo cuja missão seria livrar as almas dos justos dos pecados em terra. Segundo ele, eram protetores silenciosos e mais antigos do que qualquer outra ordem existente. Esse homem afirma então que a criança em posse de Matt Murdock seria o próprio anticristo e que a única opção seria ceifar sua vida o quanto antes.
Apesar do choque e da invasão constante de sua identidade, Matt permanece cético e se diz incapaz de acreditar que matar uma criança seria a solução para o inevitável apocalipse. Antes de sair, o homem lhe entrega um crucifixo e o repreende, dizendo que aquela criança atrairia para Matt tudo de pior em sua vida.
E logo isso parece se tornar verdade.
Karen volta com um laudo positivo para HIV, o melhor amigo de Matt é preso por estupro e ele é espancado por seu algoz mais implacável. Tudo isso o leva a acreditar que a criança realmente é culpada, chegando ao ponto de quase jogá-la de um prédio, sendo impedido apenas por seu senso comum.
Matt começa a ter crises de raiva cada vez mais frequentes, perde também seu emprego e agora vê sua fé no Criador — talvez sua maior força — ruir. Então, considerando que o Altíssimo o abandonara, ele tem a melhor ideia possível: vai até Stephen Strange pedir uma reunião com o próprio diabo.
As zombarias do diabo em relação a Matt são enormes. Ele diz ser impossível que um homem católico não soubesse que, se o anticristo viesse à Terra, já seria um adulto. Matt então tem outro surto de fúria, acreditando que o mago e o diabo estavam agindo em complô para defender a criança, até ser interrompido e imobilizado por Strange, que o livra de uma espécie de toxina de persuasão ativada toda vez que seu cérebro encontrava um impasse em relação ao seu estado atual.
Mas as coisas não param por aí.
Cada nova resposta encontrada por Matt abre espaço para perguntas ainda maiores e, pouco a pouco, o que parecia uma guerra religiosa passa a parecer algo muito mais humano — e talvez exatamente por isso mais assustador. Entre encontros inesperados, memórias que insistem em retornar e uma sequência de tragédias cada vez mais difíceis de ignorar, Matt começa a perceber que nem toda queda vem do inferno e que às vezes o pior inimigo da fé não é o mal absoluto, mas o desespero.
Enquanto tenta descobrir se foi escolhido para proteger o salvador ou impedir o nascimento da destruição, o Demolidor se vê cada vez mais distante da imagem de homem inabalável que construiu para si. O advogado racional desaparece aos poucos e sobra apenas um homem tentando entender se Deus ainda está olhando.
É nesse momento que O Diabo da Guarda deixa de ser apenas uma história de super-herói.
A ideia que vem da passagem “Ainda que ele me mate, nele esperarei.” normalmente passa uma sensação de fé absoluta e cega, mas primorosamente não é exatamente isso. Durante toda a obra somos apresentados à perda, dor, luto e desespero. Ainda assim, no final das contas, uma vida é salva e tem a oportunidade de seguir, e esse talvez seja o grande ápice da história.
Fazer o bem por temer as consequências do mal não passa de filtrar ganância através da caridade. Sendo assim, agir por pura fé em relação a salvar uma vida, isso sim é de cunho santo.
Vivemos em um século onde a gravidade dos atos humanos é totalmente injustificável se colocada em perspectiva com o livro sagrado que muitos fingem seguir. A ideia de imoralidade e crueldade presente em comentários e ações em nome de “Deus” se torna cada vez mais comum e não reflete qualquer raciocínio presente nas melhores passagens bíblicas. O senhor afetuoso, afável e alegre é cada vez mais tratado como um pulha determinador de regras e imagem de transgressor dos atos morais — e esse é o ponto que Kevin Smith consegue expor aqui.
A dualidade entre a fé e o ódio de Matt Murdock mostra ele muitas vezes voltando atrás em suas ações quando as coloca em perspectiva religiosa, não como alguém que se obriga a seguir um código, mas como alguém que individualmente tenta entender e compreender o que aquelas palavras ensinadas significam. Enxergar a beleza e o sentido em toda essa missão divina talvez seja muito mais fácil quando pensamos em sua cegueira.
E assim eu espero que além de mim alguém consiga enxergar essa ambiguidade no Demolidor e em suas histórias: um homem vestido de diabo que luta em favor dos justos. Essa é a ironia que confronta uma realidade distorcida onde, na maioria das vezes, o homem de terno age em palavra de Deus realizando atos que nem mesmo o diabo seria condizente.


