Obra: Animal Man
Personagem principal: Animal Man
Nome civil: Buddy Baker
Editora: DC Comics
Roteiro: Grant Morrison
Publicação principal: 1988–1990 Arte principal: Chas Truog
Nos anos 80, a DC Comics , mais especificamente a maravilhosa Karen Berger, que era responsável pelo selo Vertigo, passava por sua reestruturação para histórias de heróis adultas. Após Alan Moore fazer sucesso com suas edições de Saga do Monstro do Pântano, a Detective Comics decidiu que era o melhor momento para importar escritores britânicos e lhes entregar liberdade para contar a história de personagens série B, C, D e às vezes até Z, que é o caso de Grant Morrison com o Animal Man.
Conforme o leitor vai amadurecendo, normalmente aquilo que ele lê acompanha suas novas ideias e valores. Sendo assim, as histórias em quadrinhos, principalmente as de super-heróis, deixam a simplicidade de lado nesses casos, ou seja, deixam de ser apenas sobre a briga do bonzinho contra o vilão para se tornarem palco para escritores transmitirem críticas e ideias sobre o nosso cotidiano. Dessa forma podemos compreender que os heróis amadureceram conosco, e o grande ponto que eu quero mostrar aqui é que, por mais que você não conheça ou talvez nunca tenha ouvido falar dele, o Homem-Animal é um dos grandes culpados pela expansão dos heróis na mídia.
Normalmente eu acabo falando sobre uma história em específico ou sobre uma obra inteira, mas nesse caso quero abordar as 13 primeiras edições do Homem-Animal por Grant Morrison, que foram responsáveis por popularizar o personagem nos anos 80.
Basicamente, a história nos apresenta Buddy Baker, um dublê que se encontra desempregado, tendo uma esposa e dois filhos. Porém, Buddy possui uma particularidade muito interessante: após um acidente aleatório envolvendo uma explosão, ele ganhou a habilidade de conseguir emular as forças e habilidades de qualquer animal próximo a ele. Ou seja, ele consegue ter a força de um touro, pode voar como um beija-flor ou até mesmo consegue se multiplicar igual a uma bactéria.
Buddy deixou de ser herói há oito anos, e agora, já à beira dos 30, começa a ver o negócio do heroísmo voltando à tona graças às aparições da Liga da Justiça Internacional na TV. O estalo é imediato. Buddy então avisa sua esposa que iria tentar voltar a ser um herói em tempo integral e até mesmo ficar famoso.
É aqui que as histórias do Homem-Animal se tornam muito atuais.
Pode parecer comum hoje, porém foi com histórias assim que se popularizou o herói “gente como a gente”. Apesar do Spider-Man de Steve Ditko criticar muito a idealização do otimismo do trabalhador ao demonstrar o dia a dia de Peter Parker, nem de longe ele conseguia transmitir a ideia de vida da maneira que o Homem-Animal consegue.
A esposa de Buddy, Ellen Frazier, é uma artista plástica que sustenta a casa desenhando storyboards, mas que sonha em ilustrar livros infantis. Aqui temos talvez a melhor representação da esposa de quatro jornadas de todos os tempos. Ellen trabalha, cuida da casa, dos filhos e ainda por cima precisa reagir a invasões de supervilões em sua casa constantemente, enquanto tenta compreender e mediar as discussões com um marido que entra nesse sonho de ser herói. Ellen é uma das personagens femininas mais bem escritas por Morrison durante sua carreira: forte, determinada e claramente a matriarca da família, que apesar da dureza com o ridículo Buddy ainda demonstra carinho e afeto pelo parceiro.
As aventuras do Homem-Animal então seguem a partir desse prólogo, que logo se mostra muito cômico. Buddy é ridicularizado por conta do colã apertado e dos poderes esquisitos, sendo apelidado de “zoológico ambulante” pela mídia. Porém, logo ele recebe sua primeira missão, que envolve o resgate de uma macaca infectada com um vírus mortal pelo governo dos Estados Unidos, e novamente o Homem-Animal se torna muito atual.
Essa história faz com que Buddy confronte médicos e discuta constantemente em favor dos animais, fazendo uma verdadeira virada de chave em sua cabeça:
“Eu não só emulo os animais… eu vejo a vida do ponto de vista deles.”
O quadrinho demonstra muito bem isso com quadros alternando entre a história principal e algumas outras situações envolvendo a família de Buddy, como a esposa sendo ameaçada por caçadores numa floresta ao tentar proteger um grupo de filhotes de gato, ameaçada da maneira mais ameaçadora que uma mulher consegue se sentir.
No final das contas, Buddy vê a macaca especial morta no fim de sua aventura, e sua esposa é salva pelo vizinho, mas vê os gatinhos morrerem. E novamente o quadrinho se propõe a discutir aquilo que está ao redor do sofrimento animal, de todos os lados: do lado do Buddy e dos poderosos, e do lado da Ellen, que é só uma pessoa normal.
Isso inclusive gera uma discussão muito interessante entre Buddy e seu vizinho, onde Buddy afirma que a vida de qualquer ser vivo no planeta Terra vale a pena ser salva, enquanto o vizinho afirma que muitas crianças morreriam se não fosse o sacrifício de alguns animais para vacinas.
No seguimento dessa história Buddy se torna vegano e afirma para o filho rebelde que vai jogar toda carne da casa fora. Ellen, enfurecida, afirma para ele que também é contra a violência sofrida por esses animais, mas aquela ainda é a única comida que eles têm em casa, além das crianças já estarem acostumadas com aquilo. E novamente voltamos ao velho ponto: foi ela quem trabalhou por aquilo, enquanto o marido agiu apenas por impulso.
As discussões na casa dos Bakers são muito bem escritas, assim como os diálogos de Buddy no mundo em geral. Quando, por exemplo, ele encontra o Superman e os dois conversam brevemente, fazendo Buddy perceber que mesmo sendo o maior herói da Terra, o Homem de Aço ainda teve tempo de dar um “alô” para o Homem-Animal.
Para complementar aqui o texto, precisamos falar sobre o polêmico “Evangelho Segundo o Coiote”. Aproveitando que a Warner Bros. volta e meia trabalha em projetos envolvendo o Coiote dos Looney Tunes, é importante dizer que essa história do Homem-Animal é cheia de analogias religiosas e metalinguagens extremamente interessantes.
No conto, vemos um coiote bípede ser atropelado por um caminhão na beira do deserto e logo depois se regenerar. No quadro seguinte, um homem caça o coiote e dá um tiro bem no peito do animal, que nos quadros seguintes cai em um penhasco profundo. E novamente ele se regenera. Não satisfeito, uma pedra gigantesca cai em cima dele após tudo isso — e novamente ele se regenera.
Bem, se ainda não ficou claro, o coiote é obviamente uma referência ao personagem dos desenhos animados, fadado a sofrer de novo e de novo nesse ciclo sádico de reencarnação. Porém, os quadros não mostram apenas um animal morrendo infinitamente; eles descrevem de maneira extremamente cruel cada detalhe daquela dor.
“dor imensa” “o recém-ativado sistema nervoso, subitamente congestionado de sinais frenéticos, parece uma rede telefônica sobrecarregada” “a criatura se convulsiona gemendo” “a cintura se fecha com suturas microscópicas para confinar vísceras que rapidamente se recompõem” “a costela partida que rasgou um pulmão é reabsorvida” “a caixa torácica se fecha sem emendas” “o pulmão volta a se inflar” “a criatura se ergue trêmula” “no céu, abutres frustrados afastam-se para o crepúsculo” “Mirem, pois…” “… o milagre da ressurreição”
O Homem-Animal acaba topando com o coiote, que lhe entrega uma carta. Nela temos um evangelho descrevendo um mundo de conflito infinito, basicamente um mundo de desenhos animados. O coiote então, citado no próprio evangelho como “ardiloso”, diz que está farto desse conflito e dessa dor, e decide conversar diretamente com “o criador”.
A figura nos céus não é Deus, mas sim um quadrinista, que ao ouvir a reclamação do Ardiloso lhe entrega um acordo: ele daria fim ao conflito naquele mundo, mas para isso o Ardiloso seria enviado ao inferno superior. Não ao nosso mundo, mas ao mundo dos quadrinhos de super-heróis, onde estaria fadado a morrer e reincarnar infinitamente, carregando a liberdade do conflito, mas conhecendo agora uma nova dor toda vez que se sentisse vivo.
Esse é o registro do Evangelho do Coiote que Buddy Baker não lê — até porque isso é uma história em quadrinhos, e coiotes não sabem escrever. Ao Buddy dizer que não consegue entender nada, o coiote recebe a última bala de prata do caçador e então morre bem no meio de uma encruzilhada, com seu sangue inicialmente branco logo sendo pintado de vermelho. Assim termina o registro: com o coiote morto, braços abertos em uma cruz de asfalto.
A maneira como o mito cristão é explorado nessa história é extremamente interessante. A forma de colocar o quadrinista como o divino de um mundo cruel, enviando alguém ao inferno para pagar pelos pecados de seus subordinados, continua sendo uma das analogias religiosas mais impressionantes já feitas nos quadrinhos.
Na época, essa história foi duramente criticada, mas ainda hoje continua sendo uma breve porém impressionante analogia religiosa sobre sofrimento, existência e violência para os tempos atuais.
O Homem-Animal então é esse tipo de personagem, ainda com muitas outras histórias que falam sobre os mais diversos temas, mas que deixa claro ser o grande amálgama daquilo que amávamos no início dos heróis: a comparação com a realidade a partir do ridículo e do extrapolado.
A maneira como o quadrinho se comunica através desses contos é irreferenciavelmente épica, e essa continua sendo com certeza uma das minhas fases favoritas das histórias em quadrinhos. Buddy Baker busca fama e dinheiro para continuar vivendo, mas aprende nessa busca que a vida é muito mais do que apenas isso.
Vale anotar que o Homem-Animal ainda é responsável por ser uma forte voz na luta em favor dos direitos dos animais, que por mais fraca que pareça hoje ainda continua existindo. Ele também possui uma fase extremamente interessante que fala sobre as cicatrizes deixadas pelo apartheid na África em geral.
Bem, se tudo que eu contei aqui não te deu ao menos alguma curiosidade em torno do Homem-Animal, acho que realmente não tenho muito mais o que apresentar.
Agora, caso você não goste muito dessa coisa de super-herói ou quadrinho, acho que essa ainda é uma ótima pedida. Afinal das contas, quase ninguém conhece o Homem-Animal, e talvez em alguma conversa entre amigos você possa ser o diferentão e dizer que ele é o seu favorito.


