Título: A Sociedade do Cansaço
Título original: Müdigkeitsgesellschaft
Autor: Byung-Chul Han Publicação original: 2010
É fácil observar que, no último século, as enfermidades psicossociais tiveram um crescimento extremamente relevante. Depressão, burnout, TDAH e diversos outros colapsos emocionais passaram a fazer parte do cotidiano de maneira quase casual. E é justamente disso que trata a formidável A Sociedade do Cansaço , de Byung-Chul Han: uma tentativa de compreender os motivos da decadência emocional contemporânea e, acima de tudo, conduzir alguma certeza àquele que sofre em silêncio dentro da sociedade moderna.
A obra começa com uma comparação extremamente justa. O século XXI já não teme a gripe comum como antigamente — ela não foi exterminada, mas sim controlada. E, ao mesmo tempo, somos também a geração que descobriu a epidemia dos problemas psicológicos, hoje muitas vezes mais comuns que uma simples gripe. Byung-Chul Han ainda afirma na obra que “vivemos uma era infecciosa”, referindo-se à clara abundância dessas doenças emocionais e à maneira como elas se espalham silenciosamente dentro da sociedade do desempenho.
O autor dialoga constantemente com outras correntes filosóficas e entra em desacordo com diversos pensadores, mas, mesmo aos trancos e barrancos, deixa clara sua principal ideia: a sociedade já foi disciplinar, porém hoje se tornou uma sociedade do desempenho — muitas vezes do desempenho inalcançável. É nesses cenários cotidianos que surgem os primeiros sinais do colapso. A cobrança constante e o otimismo exagerado, que para o autor é um dos grandes vilões da contemporaneidade, tornam-se ferramentas para que distúrbios como depressão e burnout se concretizem.
A obra também apresenta discussões mais profundas, utilizando referências a Karl Marx para abordar a exploração do trabalho e a forma como o individualismo extremo transforma o fracasso em responsabilidade exclusivamente pessoal. Sempre permanece o pensamento: “eu fracassei”, “eu deveria ser melhor”. E é justamente daí que nasce o mito da produtividade infinita. Claramente, a ideia de Byung-Chul Han é construir uma ligação entre o modelo econômico atual e o grande estopim desses problemas psicológicos. A produtividade incessante e o individualismo meritocrático se tornam figuras que dificultam quase completamente a busca por soluções para as enfermidades psicossociais.
Por fim, A Sociedade do Cansaço também se mostra uma leitura extremamente atual justamente pela simplicidade com que observa o óbvio dos tempos modernos. Vídeos curtos e acelerados, postagens cada vez menos textuais nas redes sociais e até mesmo esportes adaptados para prender mais rapidamente a atenção do público servem como exemplos claros dessa aceleração constante. O livro sugere que a sociedade do cansaço também é a sociedade da preguiça intelectual e do desinteresse, e talvez essa seja uma de suas maiores preocupações.
A inevitável morte da criatividade acontece justamente através do consumo excessivo e violento de conteúdo, transformando indivíduos em peças de repetição dentro da sociedade do desempenho. Assim, podemos compreender a ideia central da obra: da mesma maneira que a gripe comum jamais deixará de existir, as enfermidades psicológicas provavelmente também nunca desaparecerão — apenas serão controladas, isso se ainda houver tempo para tal controle. E é justamente isso que torna a comparação inicial de Byung-Chul Han tão eficiente e perturbadora.
Após a leitura, digo sinceramente que não aprendi algo completamente novo — e não digo isso por egocentrismo. O texto funciona muito mais como um grande dicionário dos problemas modernos, uma análise eficiente e extremamente consciente da realidade contemporânea. Ainda que eu não concorde totalmente com o autor em alguns pontos, principalmente em relação ao otimismo, é impossível negar a relevância de sua reflexão. O excesso da palavra “sociedade” dentro da obra existe porque o autor enxerga essas doenças emocionais não apenas como problemas individuais, mas como consequências coletivas de um modelo social inteiro. E talvez seja justamente isso que faça A Sociedade do Cansaço continuar sendo uma leitura tão importante.



