Obra: O Caso de Charles Dexter Ward
Autor: H. P. Lovecraft
Título original: The Case of Charles Dexter Ward
Ano de publicação: 1941 (publicação póstuma) Gênero: Horror cósmico / ficção gótica
Se hoje temos tantos ícones da cultura pop ligados ao terror, a maioria deles foi inspirada pelas obras multiversais de H. P. Lovecraft , o escritor totalmente impopular em vida que se tornaria o maior ícone da literatura de horror cósmico e terror sobrenatural em toda a arte contemporânea. Fato é que Lovecraft desenvolveu o gênero mesmo sendo praticamente desconhecido em seu tempo. Porém, torna-se até cômico perceber que, após vários anos de leituras e traduções de seus títulos, começamos a descobrir alguns detalhes um tanto quanto interessantes sobre sua figura.
O caso de Charles Dexter Ward conta a história de Dexter Ward, um jovem apaixonado por arqueologia que entra em uma jornada de pesquisas e descobertas sobre um falecido antepassado que teria sido um vampiro. Essa jornada leva o jovem Dexter a um antro de loucura psicológica e rituais sobrenaturais, descritos no livro pelo psiquiatra que o acompanha ao longo de sua vida, até o momento em que o jovem acaba sendo levado para um hospital.
Ao longo da obra somos apresentados a rituais envolvendo segredos obscuros e entidades cósmicas que assombram a narrativa. O conteúdo ainda conta com momentos de horror visual relacionados a criaturas apavorantes, além de seguir o padrão característico da escrita de Lovecraft: ambientes extremamente bem descritos, com uma construção de cenas minuciosa, por vezes impecável e até agoniante.
Ao meu ver, essa obra retrata muito bem a construção de um personagem que vai perdendo a sanidade em busca de conhecimento, lembrando um pouco O médico e o monstro em sua estrutura narrativa. No entanto, ela se destaca principalmente pela maneira como é escrita e pela forma com que retrata cada situação apresentada. Lovecraft é quase um viciado em criar ambientações aterrorizantes , e parece que, à medida que a obra se desenvolve, esses momentos vão se tornando cada vez mais intensos e assustadores. Isso pode até parecer óbvio, mas não é tanto quando somos apresentados aos relatos iniciais das pesquisas de Dexter Ward.
No entanto, o ponto que mais me chamou atenção após essa leitura envolve um dos traços que mais desanimam em relação à figura de importância cultural que Lovecraft se tornou: o fato de muitas de suas histórias representarem medos reais e preconceitos pessoais do próprio autor , conhecido historicamente por suas posições extremamente racistas.
Nessa obra percebemos que uma versão mais jovem do próprio Lovecraft parece se manifestar com mais força, pois o livro aborda duas questões recorrentes: parentes distantes ligados a culturas não católicas e a constante marginalização dos psicologicamente instáveis na jovem sociedade americana.
O caso de Dexter Ward mostra constantemente médicos e psicólogos demonstrando certa descrença diante das provas apresentadas pelo protagonista sobre suas descobertas. Esse ponto pode ser analisado como uma possível crítica de Lovecraft ao estado de saúde de seu pai, Winfield Scott Lovecraft , que após um surto psicótico morreu no mesmo hospital psiquiátrico onde fora internado.
O pai de Lovecraft esteve em péssimas condições durante seus últimos anos de vida, sendo visto frequentemente falando absurdos ou realizando comportamentos considerados estranhos. Apesar desses relatos por parte de pessoas próximas, Lovecraft afirmava que o pai sofrera de paralisia causada por excesso de trabalho — talvez uma tentativa de esconder a vergonha relacionada à condição real do patriarca, possivelmente ligada à sífilis em estágio avançado , algo que ainda hoje não se sabe ao certo se Lovecraft tinha conhecimento.
Em relação à sua árvore genealógica conturbada, é aqui que talvez resida parte da inspiração para a trama de O caso de Charles Dexter Ward . Lovecraft, apesar de ter se casado com uma mulher judia, era conhecido por seu pensamento supremacista, profundamente ligado à sua visão elitista e à idealização de seus antepassados ingleses. Porém, ao longo dos anos foi descoberto que Lovecraft possuía ascendências de origem judaica e não branca — temores que aparentemente o influenciaram tanto nessa obra quanto em outras nas quais ele menciona a mistura de etnias como algo perturbador.
Na obra também aparecem referências a povos escravizados sendo apresentados como praticantes ou apoiadores das artes das trevas. Apesar dessa crença absurda, Lovecraft era declaradamente ateu, e isso talvez explique sua relação peculiar com o medo do desconhecido e com o terror cósmico presente em suas histórias.
O medo de pertencer a um grupo considerado de menor valor — ou de nunca ter pertencido ao grupo que se considera digno — parece ter acompanhado Lovecraft durante boa parte de sua vida. Esse conflito interno pode ter sido um dos motores de sua produção literária.
No fim das contas, mesmo quando falamos de rituais sobrenaturais e monstros de outros universos , encontramos algo muito mais humano por trás dessas histórias: um homem profundamente marcado por suas próprias inseguranças e preconceitos.
Assim, apesar de ser um escritor genial e uma figura extremamente interessante para a história da literatura, Lovecraft também foi alguém que carregou por muito tempo aquilo que hoje podemos chamar de internalização do preconceito — um traço que revela muito não apenas sobre sua própria vida, mas também sobre as bases culturais da sociedade norte-americana em que viveu.



