Obra: O Senhor dos Anéis – As Duas Torres

Autor: J. R. R. Tolkien

Editora: Allen & Unwin

Ano de publicação: 1954

Formato analisado: Romance / Fantasia épica

Dados os acontecimentos de A Sociedade do Anel , seguimos para sua continuação direta, As Duas Torres . Aqui, Tolkien amplia de forma decisiva o escopo de seu mundo, apresentando novos reinos, novas culturas e uma fragmentação narrativa que acompanha a própria ruptura da Sociedade.

No início da história, a caçada empreendida por Aragorn, Legolas e Gimli em busca de seus pequenos companheiros parece interminável. O livro dedica páginas e mais páginas à exaustão dessa jornada: dias sem descanso, sem alimento adequado, movidos apenas pela esperança de alcançar Merry e Pippin antes que seja tarde demais. Quando Aragorn encontra no chão um broche pertencente a Merry, uma fagulha de esperança reacende suas forças. Aquela pequena prova de vida parece conceder-lhes uma última dádiva de resistência.

Essa perseverança os conduz até os Cavaleiros de Rohan. Éomer, seu líder, relata que uma grande tropa de orcs fora exterminada, mas que nenhum pequenino fora encontrado entre os mortos. Apesar da relutância inicial, Éomer reconhece a honra dos viajantes e lhes concede cavalos para que possam continuar a busca. No local da batalha, entre corpos de orcs queimados, o trio conclui que os hobbits devem ter escapado para a Floresta de Fangorn.

A mata se revela inquietante. Gimli sente nela algo de antigo e ameaçador, enquanto Legolas recorda antigas histórias élficas, de quando seus parentes conversavam com as árvores. Fangorn, agora desperta, ainda compreendia a língua dos homens e dos elfos. É nesse cenário que surge um vulto branco. Preparados para enfrentar Saruman, os três se veem diante de uma revelação impossível: Gandalf, aquele que os guiara até Moria, retornara — não mais como o Cinzento, mas como Gandalf, o Branco.

Montado em Scadufax, o maior dos cavalos, Gandalf assegura que Merry e Pippin estão sob proteção de um poderoso aliado. Agora, a missão é outra: seguir até o rei Théoden de Rohan, cuja mente fora corrompida. Juntos, cavalgam até o palácio do rei.

Enquanto isso, Merry e Pippin, após fugirem dos orcs durante o ataque dos Cavaleiros de Rohan, encontram uma criatura ancestral: Barbarvore, um Ent — pastor das árvores. Com ele, aprendem que a floresta está viva, que observa e se recorda. Ao saber que Saruman vem devastando as árvores ao redor de Isengard, Barbarvore convoca o Conselho dos Ents, um encontro que decidirá o futuro da guerra. Os hobbits aguardam sob os cuidados de Tronquesperto, um Ent mais jovial, enquanto o mundo ao redor começa lentamente a se mover.

De volta a Rohan, Gandalf liberta o rei Théoden da influência de Língua de Cobra, servo de Saruman. A gratidão do rei se converte em ação: Rohan se prepara para a guerra. Mulheres e crianças são enviadas para segurança, enquanto o exército marcha para o Abismo de Helm. É nesse período que Tolkien nos oferece um dos diálogos mais humanos da obra: Éowyn confessa a Aragorn seu desejo de lutar, sua angústia por ser deixada para trás, presa a deveres impostos por sua condição. Aragorn, dividido entre honra e sentimento, não lhe oferece promessas — apenas a dura verdade do caminho que escolheu trilhar. É um momento silencioso, melancólico, onde o amor existe, mas não encontra espaço para florescer.

A Batalha do Abismo de Helm se inicia ao cair da noite. Superados em número, os homens de Rohan enfrentam uma força esmagadora. Ainda assim, Gimli e Legolas transformam o horror em disputa, contabilizando cada orc abatido. A derrota parece inevitável até que a própria natureza se volta contra Saruman. Os Ents marcham. Isengard é inundada, suas muralhas destruídas. O Conselho Ent chegara à sua decisão: nenhuma árvore deveria ter sido derrubada impunemente.

Saruman se enclausura em sua torre. Gandalf e os outros o confrontam, mas o feiticeiro se recusa a se render. Em um gesto definitivo, Gandalf quebra seu cajado e o expulsa da ordem dos magos. Em fúria, Saruman lança o palantír — a pedra vidente —, revelando involuntariamente o instrumento que corrompera sua mente. Os Ents passam a vigiar Saruman e Língua de Cobra, enquanto os povos livres seguem seu caminho rumo a Gondor.

Paralelamente, acompanhamos Frodo e Sam em uma jornada cada vez mais solitária. Guiados por Gollum, atravessam pântanos mortos, terras desoladas e sombras crescentes. A promessa de Gollum se mostra frágil, e sua dualidade — entre servo e traidor — se intensifica. A amizade entre Frodo e Sam, por outro lado, se fortalece diante da adversidade. Sam permanece como âncora moral, como lembrança de um mundo simples que Frodo lentamente perde. Durante a jornada ao lado de Gollum, Frodo e Sam vivem um dos momentos mais marcantes de toda a narrativa. Em sua travessia rumo a Mordor, os hobbits se veem no meio de um combate brutal entre orcs e homens do Sul. Entre lanças, gritos e o cheiro de morte, surge algo que Sam jamais imaginaria presenciar: um mûmakil, o gigantesco elefante de guerra das terras distantes, avançando como uma criatura mítica arrancada de antigas canções.

Após o confronto e a fuga daquele cenário caótico, os dois são descobertos por uma figura que desperta uma estranha sensação de déjà-vu. O líder da tropa que enfrentara os orcs os captura e os conduz a um refúgio secreto. Agora nas mãos de alguém que não sabiam dizer se era aliado ou inimigo, o Anel se encontrava em perigo como nunca antes. Ao se apresentar como Faramir, esse temor apenas se intensifica.

Faramir é o irmão de Boromir, e aqui faço uma observação pessoal: sempre tive ressalvas quanto ao retrato do personagem nas adaptações cinematográficas. Nos filmes, Boromir recebe um tratamento mais nobre do que no livro, enquanto essa dignidade acaba sendo retirada de Faramir — uma inversão que considero injusta. Na obra de Tolkien, Faramir é um homem profundamente honrado.

Diante da revelação do Anel, Faramir se vê tentado. Aquele artefato poderia significar a salvação de Gondor e, talvez, a aprovação que jamais recebera de seu pai. Ainda assim, em um dos mais belos atos de nobreza humana da obra, ele recusa o fardo. Declara que não tomaria aquilo nem se estivesse caído à beira da estrada. Em vez disso, decide ajudar Frodo, embora deixe claro que o caminho escolhido era terrivelmente perigoso — e sugere uma rota alternativa.

Frodo responde que seu guia conhecia apenas aquele trajeto. Em mais um gesto de piedade, os homens de Faramir poupam Gollum, que havia sido capturado e deveria ser executado por ter descoberto o esconderijo sem consentimento. Novamente, Frodo intercede por sua vida. Relutante, mas fiel à sua honra, Faramir fornece comida e água aos viajantes e permite que sigam viagem, enquanto ele próprio retorna a Gondor para defender seu povo enquanto ainda houvesse tempo.

A jornada os leva até Cirith Ungol, onde Gollum conduz Frodo à toca de Laracna, uma criatura ancestral, monstruosa e insaciável. Frodo é atacado e cai, aparentemente morto. Sam, acreditando ter perdido seu amigo, enfrenta Laracna com uma coragem desesperada, ferindo a criatura e tomando para si o Um Anel. No entanto, orcs surgem e levam Frodo — ainda vivo — como prisioneiro.

Assim termina As Duas Torres : com a Sociedade dispersa, a esperança fragmentada e a amizade colocada à prova em seu ponto mais doloroso. O amanhã, aqui, é incerto. Talvez nem chegue. Mas ainda assim, eles seguem. Aragorn e o dilema do amor impossível

Em As Duas Torres , testemunhamos o início mais evidente da jornada de Aragorn rumo ao destino que um dia o tornaria rei e símbolo de paz para os povos livres. Contudo, por trás da figura heroica e da nobreza inabalável, vive um conflito silencioso: o amor por Arwen, a filha de Elrond.

Esse amor, à primeira vista, jamais poderia se concretizar. Aragorn é um caminheiro errante, alguém que se recusa a viver plenamente o título que lhe pertence por direito. Arwen, por sua vez, é imortal, etérea demais para compartilhar uma vida curta e mortal. Ainda assim, Aragorn escolhe amar apenas a ela — e viver com o peso dessa escolha.

Essa fidelidade absoluta o torna ainda mais honrável. Ele abdica de qualquer sentimento que pudesse surgir por Éowyn, a bela e valente senhora de Rohan, cujo afeto nasce da coragem e da determinação que Aragorn carrega consigo. Sem crueldade, mas com firmeza, ele mantém sua promessa silenciosa: amar apenas o impossível.

Aragorn vive impulsionado por esse amor que não abandona, mesmo quando a dor é constante e o futuro incerto. Ele não permite que o medo o torne covarde, nem que a ausência de garantias o faça desistir. É esse sentimento — tão humano quanto trágico — que também o conduz às batalhas que se aproximam.

O ato final de Sam Gamgee nesta parte da história revela, de forma definitiva, quem ele realmente é. Ao acreditar que Frodo está morto, Sam enfrenta o maior de seus medos. Exausto, faminto e ferido, ele encara sozinho uma das criaturas mais aterradoras da Terra-média.

Movido apenas pelo amor e pela lealdade, Sam encontra forças que jamais imaginara possuir. Em um confronto que parece impossível, ele fere o inimigo diante de si com tamanha determinação que qualquer ser das trevas hesitaria em prosseguir. Mais do que força física, é coragem moral o que sustenta Sam naquele momento.

Mesmo acreditando que a missão poderia estar condenada ao fracasso, ele toma a decisão que define toda sua trajetória: não abandonaria seu mestre. Não importava o risco, nem o peso do fardo. Sam permaneceria fiel até o fim.

É nesse gesto que ele se torna o verdadeiro símbolo de resistência contra as trevas. Simples, dócil e aparentemente frágil, Sam demonstra que a maior força da Sociedade nunca foi apenas física, mas moral. Durante toda a jornada, não há nele um único ato de covardia — apenas a firmeza de quem escolhe fazer o que é certo, mesmo quando tudo parece perdido.