Obra: Absolute Martian Manhunter

Roteiro: Deniz Camp

Arte: Javier Rodríguez

Publicação: 2025–

Editora: DC Comics Universo: Absolute Universe

Normalmente eu entrego aqui histórias finalizadas e já suas compreensões, assim como farei com Batman: Gargoyle of Gotham , do brasileiro Rafael Grampá, do qual já li os três primeiros números e fico no aguardo de sua finalização para trazer aqui minha revisão. Mas enquanto essa obra não chega, eu gostaria de falar sobre minha porta de entrada para o universo Absoluto da DC Comics, algo que inicialmente julguei irrelevante.

Porém, sejamos honestos.

Graças às palavras de Deniz Camp e à magnífica arte de Javier Rodríguez, fui avidamente trazido para acompanhar a incrível jornada do Fo*%-Mentes de Marte, o Caçador de Marte Absoluto.

Somos apresentados então a John Jones, um investigador da CIA que acaba de ser explodido em campo. Ele não é exatamente um homem de muitas palavras ou particularmente complexo, porém a realidade ao seu redor começa a ficar MUITO estranha. John é afastado do caso por seus superiores e começa a ter visões e pensamentos distantes dentro de sua mente, o que leva sua esposa a ficar cada vez mais desconfortável com o já conturbado casamento dos dois.

Em casa somos também apresentados ao filho autista do protagonista, que mostra ao pai uma figura de massa de modelar um tanto incomum: verde, com um grande olho vermelho e curiosamente familiar.

Vale dizer aqui que a história é extremamente subjetiva e aberta para diversas interpretações — um dos motivos de eu amar imensamente esse quadrinho. A mescla artística e ortográfica nos mantém presos no mesmo quadro por minutos, buscando compreender e analisar cada detalhe. É deveras muito interessante a maneira pela qual todo o contexto é apresentado. John surge quase como um jovem adulto ainda extremamente confuso sobre tudo, enquanto a relação quase gélida entre ele e sua esposa e as dúvidas que aparecem durante o quadrinho sobre personalidade, humanidade, sanidade e diferentes perspectivas psicológicas tornam tudo muito mais interessante. Tudo isso é extremamente bem escrito, mesmo dentro de uma trama aparentemente simples.

O “Marciano”, que se define assim através de uma explicação muito curiosa — de que “marciano” é apenas um termo utilizado pelos humanos para se referirem a um ser de um mundo distante — então se apresenta para John e afirma que eles agora eram uma dupla. Eles eram agora, como belissimamente traduzido pela equipe brasileira, o Fo*%-Mentes de Marte.

Ele explica para John que ambos eram capazes de enxergar as pessoas pelo que realmente sentiam ou sabiam, podendo ver a vida inteira delas através das fumaças de suas mentes, tornando palpável e visível todo sentimento e lembrança e abrindo uma nova dimensão da realidade para John, o fazendo questionar a si mesmo.

A maneira pela qual John é demonstrado quase como totalmente indiferente em relação ao seu casamento é muito bem desenvolvida pelo Marciano, que logo demonstra que na verdade John sente demais — e justamente por isso é incapaz de transmitir isso à esposa, que constantemente se frustra. Os quadros que desenvolvem essas sensações são belíssimos e artisticamente invejáveis em muitos aspectos e deixo aqui inclusive minha torcida pela conquista do prêmio Eisner deste ano, do qual a obra foi indicada para diversas categorias.

No momento estamos sendo apresentados a uma série de ataques terroristas relacionados com a explosão que feriu John durante sua investigação. O Marciano afirma que o “Marciano Branco” teria vindo para acabar com a humanidade, sendo o grande antagonista, e da mesma maneira que os dois possuíam a habilidade de enxergar mentes, ele estaria infectando os humanos mais frágeis através de suas capacidades.

Espero deveras que, caso você tenha a oportunidade de acompanhar essa aventura, faça isso, porque estamos diante de uma clara coleção moderna que em breve pode se tornar um dos símbolos dessa nova fase dos quadrinhos. Também deixo atenção especial ao cuidado psiquiátrico que o quadrinho parece abordar, claramente uma mensagem que está sendo construída aos poucos e que espero ver amadurecer nos próximos capítulos.

Mas talvez o que mais me fascine em Absolute Martian Manhunter não seja a ameaça marciana, nem o mistério ou sequer a ficção científica. O mais interessante aqui é a ideia quase desconfortável de que conhecer alguém profundamente não significa entendê-lo.

John passa a enxergar sentimentos, memórias e medos com clareza absoluta, mas continua incapaz de responder perguntas simples sobre si mesmo. Talvez esse seja justamente o ponto da obra.

Talvez não exista invasão alienígena mais assustadora do que perceber que passamos boa parte da vida habitando a própria mente como estrangeiros.

Se existe algo vindo de Marte nessa história, até agora não parece ser um monstro.

Parece apenas um espelho.