Guaíba em festa: retratos de um Carnaval fora de época

No dia 14 de março deste ano , Guaíba teve então mais um de seus carnavais fora de estação, carnaval esse que ainda contava como parte da comemoração do centenário da cidade . Bem, trazendo uma matéria diferente do habitual, eu fui às ruas e, além de tirar proveito do ambiente proporcionado pela festa, tirei algumas fotos e juntei algumas histórias daquela noite. Além disso, parte do meu senso cultural foi um pouco afetado pela noite, então aquela boa e velha analogia moralista vai aparecer no texto de hoje, nada que seja inovador dentro da minha abordagem.

Acho que foram mais de dez anos sem que eu colocasse sequer os pés em algum tipo de comemoração carnavalesca. Claro que eu tenho meus motivos, grande parte deles preguiça, claro, mas dentre os outros eu vivi por muito tempo acreditando que o Carnaval em si se tratava de uma reunião para mascarar a tristeza do cidadão comum em relação ao início de ano, que em grande maioria só traz notícias preocupantes. Toda entrada de ano nos traz déficits financeiros, comparações de outras eras demonstrando baixa em quaisquer que sejam os campos de ação e até mesmo alta em taxas de risco. Talvez meu retorno à mais antiga das comemorações latinas tenha mudado esse ponto de vista tão atrasado.

Fato é que Guaíba, no Rio Grande do Sul, é uma cidade muito pequena , menor ainda é sua cultura local, não fazendo dela indiferente quanto à cultura farroupilha presente na região. Porém, um dos grandes fatores que tornam o Brasil maravilhoso é sua gigantesca mistura de culturas, e nisso o Carnaval de Guaíba acerta, e muito.

Tive a honra de fotografar musas carnavalescas e até mesmo heróis de quadrinhos . A grande imensidão de pessoas me entregou uma variedade de vestimentas da qual eu há tempos sentia falta em densidade popular: de roupas festivas e coloridas até algo mais próximo do streetwear norte-americano. As belíssimas e estilosíssimas camisetas de futebol de times de pouca casualidade — estas das quais eu sempre reparo ao longe — e muito mais reunido, sim, com trajes tradicionais gaúchos presentes na festa, me provaram mais uma vez o quão cômico é propor a reunião entre pessoas que vivem na mesma região.

Eu acho justo apontar que a segurança e o ambiente proporcionado pela atual bancada guaibense são de muito acerto. Não consigo enxergar algum ponto de crítica concisa quanto a isso, pois achei extremamente organizado e bem estruturado de todos os lados do evento. De maneira mais simples, quando algo é feito para o povo com o intuito de promover cultura e alegria, acho que no fundo as coisas são mais simples de serem esquematizadas.

Porém, há seus pontos também. Preciso relatar que uma amiga sentirá falta da presença da musicalização das religiões de matrizes africanas, o que historicamente faz total sentido. Eu realmente entendo a preferência por músicas mais atualizadas do cotidiano e dos medalhões carnavalescos já populares, mas, usando de brecha esse trecho do texto, vale apontar que essa reclamação é totalmente válida. O Rio Grande do Sul tornou-se o estado com maior número de praticantes de religiões de matriz africana . De acordo com o Censo de 2022, o estado triplicou o número de praticantes em relação a dez anos atrás, e esse número vem crescendo de maneira animadora para os adeptos dessas religiões, pois o preconceito em relação a essa cultura ainda é uma marca bastante registrada no estado.

Apesar de eu realmente me sentir animado ao escrever esse texto, ainda existem pontos mais coerentes a serem discutidos. Eu não só vi, mas ouvi diversas vezes, de alguns ricos indivíduos carentes de alegria ou cultura, que o Carnaval é apenas mais um “ pão e circo ”, ainda mais realizado em uma cidade pequena “sem essa cultura” e utilizando dinheiro público. São nesses momentos que é muito fácil perceber quando alguém fala do mundo real e quando alguém vive nele.

Sinceramente, trabalhar seis dias por semana, vinte e seis dias ao mês , é um tanto desgastante, mais ainda quando você faz isso pela simples obrigação de existir. Tentando não ser tão profundo ou crítico a esse ponto, dizer a alguém que é perda de tempo uma festa de Carnaval ou quaisquer outras comemorações animadoras das quais o trabalhador deveria tirar proveito, e utilizar de argumento alguma forma de difamação aos que participam dessas comemorações, é da mais pura estirpe dos estúpidos e egocêntricos que, nos seus finais de semana, têm acesso ao “pão” e ao “circo”.

Eu queria agradecer profundamente a todos que me permitiram fotografar seus momentos naquela noite. Peço desculpas pela qualidade — o artista ainda está em desenvolvimento. No final das contas, apesar de algumas críticas vazias de um escritor confuso, espero que você sinta ao menos a mesma sensação que eu ao ler esse texto. Ele fala sobre alegria e sobre a capacidade de reunir uma comunidade que raramente consegue se encontrar em cenários atípicos como esse. Então, nessas raras ocasiões, é onde as multidões mostram suas maravilhosas diferenças e, no final das contas, bebem até o nascer do sol.

Talvez seja justamente aí que mora o verdadeiro valor de noites como essa. Não apenas na festa, na música ou nas fantasias, mas na simples possibilidade de que, por algumas horas, uma cidade inteira se lembre de que ainda sabe se reunir, rir de si mesma e celebrar algo em comum. E, em tempos em que tantas coisas parecem nos separar, talvez isso seja muito mais importante do que muitos estariam dispostos a admitir.