Obra: O Homem de Aço

Direção: Zack Snyder

Roteiro: David S. Goyer

Produção: Christopher Nolan

Estúdio: Warner Bros. Pictures

Ano de lançamento: 2013

Formato analisado: Filme

Após assistir e gostar muito do que James Gunn entrega com Superman (2025), senti-me muito atraído a reassistir outra obra recente do herói, mais especificamente O Homem de Aço , de Zack Snyder. Na trama, temos o início da carreira do Superman em meio à invasão do General Zod para terraformar o planeta. Kal-El se encontra, então, em um dilema moral: abandonar completamente seu anonimato em meio à sociedade para salvá-la ou permitir que o mundo que não conheceu retorne à vida.

O Homem de Aço impressiona por modificar os padrões estabelecidos pela obra de 1978, vivida por Christopher Reeve. Deixamos de ter um herói colorido e um símbolo de esperança e amizade para algo mais forte e ambicioso: um símbolo de justiça e poder inabaláveis. É aí onde talvez o filme se perca e se reencontre muitas vezes.

O início do século XXI trouxe, por parte das editoras de quadrinhos, uma subversão de seus heróis populares e até mesmo uma popularização dos anti-heróis. Esse efeito-borboleta nos leva a uma época onde o Superman surge como uma figura autoritária que poderia pôr o mundo de joelhos se quisesse, esquecendo a premissa básica do herói: a de um “super-homem” que decide proteger a humanidade e viver sob o princípio da bondade e do amor.

Sendo assim, o filme sofre com um herói que tenta ser um símbolo de esperança e amor, mas que, ao mesmo tempo, destrói uma cidade inteira apenas porque decide jogar seu adversário em um posto de gasolina. Pode parecer irônico, porém Henry Cavill no papel de Superman não consegue definir se é uma presença perigosa e implacável ou um doce salvador que apenas quer ajudar a todos.

Zack Snyder talvez tenha sofrido com um complexo de Michael Bay durante as filmagens. Explicando esse complexo: o diretor da franquia original de Transformers tinha uma certa fixação por explosões desnecessárias que não entregam nada à narrativa além de um show de efeitos especiais. Nosso Superman aqui sofre muito com isso, pois aparentemente qualquer unidade física com a qual ele se choca explode instantaneamente.

Pode-se dizer que os impactos visuais das cenas vêm da tentativa de passar uma imagem de poder fora de escala, o que nos levaria novamente à discussão do Superman implacável. Infelizmente, isso apenas torna os combates entre ele e seus adversários uma disputa para ver quem destrói mais os arredores.

Apesar de sua narrativa confusa de querer salvar vidas destruindo grande parte delas, e de um Superman indeciso em sua maneira de agir, o filme ainda assim entrega boas atuações. O próprio Henry Cavill, durante seu primeiro voo, protagoniza uma cena memorável, com Hans Zimmer ditando o ritmo da sequência com sua sonoridade — novamente uma representação de um Superman implacável, mas que combina com a ocasião em que ele se encontra.

O embate final entre o General Zod, interpretado por Michael Shannon, e o Superman é uma surpresa muito interessante ao reassistir o filme após tantos anos. Apesar da subversão do título de herói no final da batalha, ela se mostra, mesmo com toda a destruição, muito justa por parte do antagonista. Zod, de joelhos, conta que como soldado só tinha a missão de proteger seu povo e guiá-lo a um futuro próspero. Agora, já não tinha mais nada a perder — já não tinha mais povo. Em seus olhos vemos uma figura implacável que apenas deseja matar o herói e depois punir todos aqueles que ele ama. Um vilão verdadeiramente maligno, simples, mas que funciona muito bem.

Entre controvérsias e um real desapego da moralidade do original, O Homem de Aço é, sim, uma obra importante para o cotidiano de super-heróis ao qual fomos apresentados no século XXI. Infelizmente, a ascensão hollywoodiana desse modelo de filme talvez tenha prejudicado a obra, transformando-a em um blockbuster que pouco liga para passar uma mensagem ou entregar um símbolo de esperança para o mundo real — e sinto que talvez existisse essa vontade nos planos de Zack Snyder.

No cenário atual, infelizmente O Homem de Aço perdeu seu espaço. Henry Cavill não usa mais a capa, e agora é David Corenswet o símbolo de esperança de uma nova geração aos moldes de Christopher Reeve. Sendo assim, concluo que o sucesso para ser o Azulão nos cinemas talvez sempre dependa de uma coisa: usar a cueca por cima da calça.