Obra: O Agente Secreto

Direção: Kleber Mendonça Filho

Roteiro: Kleber Mendonça Filho

Elenco principal: Wagner Moura, Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone

Ano de lançamento: 2024

País: Brasil

Gênero: Thriller político / drama histórico

Wagner Moura não conseguiu o Oscar de melhor ator, e infelizmente O Agente Secreto também não levou o prêmio de melhor filme. Ainda assim, fica aqui mais uma análise subjetiva e totalmente parcial de alguém cuja mente foi muito afetada por Moacyr Scliar durante a juventude.

A história acompanha Marcelo, um professor universitário que leva uma vida aparentemente comum em Recife. Porém, logo descobrimos que ele vive sob constante vigilância da ditadura militar brasileira dos anos 1970. Marcelo acaba se envolvendo em uma rede clandestina ligada à resistência intelectual e política contra o regime. A partir daí, passa a ser observado por agentes do Estado, entrando em um jogo perigoso de espionagem, suspeitas e paranoia. Enquanto tenta manter a normalidade — trabalho, relações pessoais e vida cotidiana — ele percebe que qualquer pessoa pode estar sendo observada ou até mesmo ajudando o regime.

O filme é muito feliz ao nos introduzir no cenário do Brasil daquele tempo. A fotografia, na minha opinião, é seu ponto mais forte, assim como a edição, que apenas peca um pouco nos minutos finais. O Agente Secreto faz parte da mesma biblioteca de filmes que Ainda Estou Aqui; apesar de ser realmente inferior ao exemplo citado, entrega muito bem aquilo que se propõe, principalmente graças à atuação de Wagner Moura e à forma como constrói o ambiente hostil e paranoico ao qual os perseguidos pela ditadura estavam sujeitos.

Acho importante oferecer uma análise mais complexa desse filme, então a partir de agora vou tentar esclarecê-lo de duas formas: primeiro cinematograficamente e depois politicamente. Vi muitas críticas duras em relação a essa obra, a maioria delas bastante injusta. Como também tenho as minhas, acho justo tentar ajudar na compreensão do filme para um público que talvez não esteja tão ambientado com sua proposta.

CINEMA

Em relação a roteiro, personagens, ambientação, fotografia, trilha sonora e narrativa, o filme flutua constantemente. Existe um problema claro no roteiro: ele não permite que criemos vínculos fortes com os personagens, principalmente devido ao curto tempo de tela da maioria deles. Somam-se a isso algumas quebras de tensão com cenas sexuais que, em minha opinião, empobrecem bastante o filme.

Por outro lado, temos a contraparte da maravilhosa ambientação e fotografia, que conseguem distrair e até prender o espectador a determinados personagens pela situação em que se encontram.

O filme se desenvolve de maneira lenta, alternando passado, presente e futuro em diversas partes da narrativa. Alguns espectadores consideraram isso confuso, enquanto outros acharam extremamente interessante.

Críticas negativas em relação ao ritmo e à narrativa do filme muitas vezes parecem bastante superficiais. Provavelmente quem escolheu assistir O Agente Secreto esperava um thriller de ação hollywoodiano qualquer e acabou recebendo uma aula de história mais complexa.

Se eu fosse comparar de maneira simples e sincera, a narrativa e o roteiro do filme se aproximam mais de obras como Coringa (2019), Onde os Fracos Não Têm Vez (2008) e Zodíaco (2007). Esses exemplos norte-americanos trabalham a violência em momentos cruciais e se dedicam a cenas mais ambíguas ou abertas, permitindo que o espectador tire suas próprias conclusões.

A maioria desses filmes é extremamente amada pelos fãs da cultura pop. Muitos deles possuem cenas carregadas de significado. Porém, a apresentação inicial de O Agente Secreto, foi tratada como confusa pelo público.

O que realmente não faz sentido é a forma vazia com que algumas críticas são feitas à construção do filme. Apesar de eu ter gostado bastante da obra, ela falha em seu final e possui momentos que atrapalham a narrativa. Ainda assim, afirmar que o filme inteiro não faz sentido é muitas vezes apenas um indicativo de falta de interpretação ou de familiaridade com esse tipo de cinema.

POLÍTICA

O Agente Secreto pode ser visto como uma das obras mais importantes do cinema brasileiro recente. Durante muito tempo houve um certo medo de abordar diretamente a ditadura militar que marcou o Brasil entre 1964 e 1985.

Infelizmente, os registros sobre a violência do Estado e a morte da democracia naquele período foram durante anos escondidos ou deixados de lado pela sociedade brasileira. A memória da ditadura pode parecer distante, mas na realidade é extremamente recente.

O cinema nacional por muito tempo foi visto como algo carregado de besteirol ou como uma simples criminalização da imagem do povo. Em O Agente Secreto, apesar de ser uma história ficcional, vemos retratos muito próximos de um dos momentos mais sombrios do país.

O movimento da academia e do cinema brasileiro em levar ao grande público filmes com essa temática é também uma forma de não deixar impunes aqueles que foram complacentes com os crimes cometidos naquele período.

Ainda hoje existe uma comissão responsável por analisar desaparecimentos, torturas e assassinatos documentados da época, muitos deles com autores que continuam livres.

É de importância irreduzível que obras como essa existam. O próprio filme deixa isso claro em seu final, ao mostrar o filho do protagonista no futuro — no nosso tempo — recusando-se a sequer comentar o desaparecimento do pai. Esse silêncio mostra como ainda existe uma espécie de cegueira coletiva em relação a esse passado, como se o país preferisse manter secreto o destino de tantos “agentes” da própria história.

No geral, O Agente Secreto é um ótimo filme. Wagner Moura é um ator excelente. O filme erra em alguns momentos, mas, como muitas obras literárias que admiro, ele entrega exatamente aquilo que promete: uma carta sobre o medo — um medo que jamais deveria existir, o medo de simplesmente ser humano em tempos de guerra fria.